Calango do Cerrado - Humberto Firmo

domingo, 14 de junho de 2009

Da Capital

Brasília, Brasília,
minha cidade sem esquinas
(dizem alguns)
cheia de blocos.

Ando por tuas retas ruas
respirando árvores
e lendo o pôr-do-sol

carros estacionados
pessoas atravessando eixos
olhando o céu vejo azul
e a noite vejo estrelas

em cada bloco uma letra
em cada letra um plano
uma linha no horizonte
um beirute num canto
repleto de pessoas históricas.

Humberto Firmo
Dentro da Poesia Matuta


Um vento raspando por cima dos versos
arrepiando os cumes das letras.
Um piar de Jacu no galho de cada estrofe
Um sapo coaxando sobre um hiato brejeiro
Um versejar de abelhas rondando a palavra melado
Entre um parágrafo e outro
tá lá, depois da porteira, um cavalo pastando.
Um mugir sonoro de gado, reticenciando-se
ao fim de um pensamento inacabado
Uma pontuação com pingos da chuva
sobre um chão de palavras encadeadas
Um cheirinho de cozinha roceira
exalando sabor por entre virgulas bem temperadas
Uma frase feita com condimentos de especiaria fina
realçando o sabor e compondo a iguaria da poética
Um som de cachorro latindo ao longe
como no repetir de uma rima
no meio de duas palavras um gole de água de moringa
para o refrigério da alma
Um cair de fruta madura no quintal
como exclamação do que está propício e maduro.
Um prosear entre silêncios de uma fala e outra,
de um silêncio à outro como no uníssono da passarinhada
O sombrear de uma mangueira cobrindo a palavra “Pomar”
Um borbulhar de bica descendo pelas calhas das entrelinhas
versificando...